Câmbio desvalorizado: o que falta para uma maior estabilidade do real e como isso afeta a sua vida

O câmbio desvalorizado faz com que todos os itens que dependem direta ou indiretamente de cotações dolarizadas se tornem mais caros. Entenda o cenário.

Heloisa Vasconcelos
Heloísa Vasconcelos

O Brasil teve o sexto câmbio mais desvalorizado do mundo em 2020, segundo ranking da Austin Rating. Após anos de crise econômica, o país tinha esperança de colocar em prática planos que pudessem resolver a situação econômica no ano passado. Até que veio a pandemia.

O real perdeu 22,4% de valor frente ao dólar em 2020. Em janeiro de 2020, o real era equivalente a US$ 4; agora, a cotação varia entre US$ 5,50 e US$ 5,60.

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O aumento impacta diretamente a vida dos brasileiros e o efeito é claro: a conta fica mais cara e a inflação sobe. A alta pode ser sentida desde o posto de gasolina à prateleira do supermercado, onde os brasileiros precisam de cada vez mais dinheiro para comprar cada vez menos.

Vários fatores impactam direta ou indiretamente o câmbio e se somaram até a situação em que o país vive hoje. A saída desse emaranhado não é tão simples e pode não estar tão perto.

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O iDinheiro conversou com especialistas para explicar o porquê do câmbio desvalorizado e o que ainda falta para a moeda ser mais estável. 

Por que o câmbio está desvalorizado?

Desde 1999 o Brasil funciona com um câmbio flutuante, o que faz com que o preço da moeda flutue livremente de acordo com a oferta e demanda das importações e exportações.

Quando há uma saída muito grande de dólares, o câmbio aumenta, tornando a moeda mais cara perante o real. E, por outro lado, quando há muito dólar no país, o câmbio se torna desvalorizado.

Os efeitos são sentidos direto no bolso. Quando o real está valorizado, o dólar é mais baixo, tornando compras internacionais e viagens mais fáceis. Mas, quando a balança pesa para o outro lado, os produtos que dependem de alguma forma do dólar ficam mais caros. E, como o Brasil utiliza transporte rodoviário e os combustíveis têm preço definido baseado na moeda americana, dá para dizer que realmente tudo fica mais caro.

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Dessa forma, com a pandemia, vários fatores se somaram e levaram a uma saída em massa de dólares do Brasil, levando, consequentemente, a uma desvalorização do câmbio.

“Nesses momentos, principalmente em uma crise mundial, a gente busca em finanças os safe heavens, os portos seguros. Os investidores buscam as moedas fortes, é normal que vendam ativos em real e comprem moedas fortes como euro, libra esterlina, dólar. Sempre que ocorre uma crise mundial, é esperado que nossa moeda perca valor”, resume o professor de finanças do Coppead/UFRJ Carlos Heitor Campani.

Baixa da Selic

Para o pesquisador associado da Economia Aplicada do FGV Ibre, Bráulio Borges, cerca de metade do valor que o real perdeu em 2020 foi consequência direta da Selic baixa.

A taxa básica de juros atingiu no ano passado o patamar mínimo da história após alguns anos de quedas, saindo de 6,5% no início de 2020 e chegando a 2% ao ano.

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“Quando o juros está baixo, não só deixa de atrair o capital estrangeiro especulativo, mas também desestimula que o próprio exportador brasileiro deixe seus dólares na economia brasileira. Isso tem sido bastante importante desde 2019, antes da pandemia”, avalia.

Ao mesmo tempo que a Selic baixa afasta os investidores por tornar a rentabilidade dos investimentos menor, ela dá uma brecha maior para que a inflação — outro fator que pesa no câmbio — cresça. 

“A Selic foi para baixo não por motivos de controle da inflação, não teria como controlar nem mesmo com uma Selic de 4 a 5%. Foi porque precisava dar algum estímulo para a economia diante da crise. Se aumentasse a Selic controlava a inflação, mas matava as pessoas”, percebe Carlos.

O Banco Central começou uma alta da taxa já neste ano, elevando-a ao patamar de 2,75% ao ano. A expectativa do mercado é que a Selic chegue ao final do ano em 5%, o que pode ser um bom sinal para a retomada do câmbio. 

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Clima de incerteza e o câmbio desvalorizado

A palavra que mais afasta qualquer investidor é incerteza. E esse foi o clima que se instaurou e persiste no Brasil, um país que já vinha de uma crise econômica e tinha esperanças em um 2020 melhor. 

A pandemia trouxe a necessidade de gastos muito maiores que o orçamento econômico poderia suportar, como o pagamento do auxílio emergencial.

Com isso, a dívida externa brasileira cresceu a ponto de causar dúvidas nos investidores. Segundo a Secretaria do Tesouro Nacional, do Ministério da Economia, o montante fechou 2020 em mais de R$ 5 trilhões.

“Nós estamos no pior momento do vírus mas o gasto já foi feito para conter. O Brasil se atrasou com a vacinação, que é o que vai fazer os países retornarem mais rápido”, destaca o economista-chefe da Messem Investimentos, Gustavo Bertotti.

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Parte dessa incerteza pode ser dissolvida no dia 22 de abril, quando deve ser sancionado o orçamento do governo para 2021

“Enquanto toda essa incerteza paira no ar, tende a manter essa desvalorização excessiva da taxa de câmbio”, analisa Bráulio. Ele designa R$ 0,30 da desvalorização do real à saída de investidores do país devido ao risco de insolvência das contas públicas.

O que falta para uma maior estabilidade

É difícil saber quando o câmbio brasileiro voltará a um ponto de equilíbrio — que, segundo Bráulio, é entre US$ 4 e US$ 4,5. Uma das peças chaves para que toda essa situação se resolva é a vacinação no país, que poderá trazer uma retomada mais consistente da economia. “De nada importa uma agenda econômica eficiente se a gente não tiver vidas”, assinala Carlos.

Para além da resolução da questão sanitária, uma série de reformas tidas como impopulares devem avançar para uma maior estabilidade do câmbio, segundo os especialistas.

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“A gente tem que ter uma agenda de reformas, reforma da previdência, reforma tributária, que vão trazer competição para o país. A dívida pública piorou muito, temos um endividamento insustentável para o país. Para ter investimentos no país tem que ter segurança, e isso não tá tendo”, afirma Gustavo.

Na opinião de Bráulio, essas mudanças que precisam ocorrer devem ser realizadas apenas a partir de 2023, devido ao ciclo político. Normalmente, mudanças polêmicas não passam para frente em anos de eleição.

“O elemento central é mudar o nosso arcabouço fiscal. Abandonar o atual teto de gastos e ir atrás de um outro teto melhor desenhado, com novas regras fiscais. A gente criou novas regras sem se preocupar em acabar ou melhorar regras antigas. Em 2023 a gente vai ter que fazer uma faxina, tentar melhorá-la em vários aspectos, porque isso pode ajudar a reduzir a volatilidade cambial”, arremata.

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