Redirecionamento de encomendas é mercado em expansão, mas demanda cautela

Empresas de redirecionamento de encomendas prometem descontos atrativos ao comprar direto no exterior, mas o barato pode sair caro. Entenda.

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Ana Júlia Ramos

O preço dos eletrônicos sofreu aumento no Brasil durante a pandemia. É o que aponta o levantamento feito pelo Zoom, plataforma que faz análise e comparação de produtos vendidos pela internet. Dados coletados em 2020 indicam alta de 9% para notebooks, 11% para câmeras digitais e 15% para fones de ouvido. É nesse cenário que o mercado de redirecionamento de encomendas encontrou uma oportunidade para atuar.

Com sede geralmente nos Estados Unidos, empresas viabilizam a compra de produtos que não existem no Brasil ou não poderiam ser enviados diretamente para a casa do consumidor, que em sua maioria está insatisfeito com a alta do dólar e busca economizar na compra de eletrônicos, roupas e cosméticos, por exemplo.

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Será que o redirecionamento de encomendas vale a pena ou o barato pode sair caro nessas situações? O iDinheiro conversou com especialistas para avaliar os possíveis riscos desse tipo de compra. 

Entenda o funcionamento do redirecionamento de encomendas

O sócio-fundador da consultoria internacional Drummond Advisors Bruno Drummond vê no redirecionamento de encomendas um mercado importante para consumidores brasileiros. 

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Empresas como a Amazon, gigante no mercado mundial, conseguem “bancar” o intermédio entre o consumidor brasileiro e qualquer produto que ele deseje. Dessa forma, não é necessário o serviço de nenhum intermediador, já que a própria empresa tomou conta do processo.

Por outro lado, não são todos os estabelecimentos que têm um envio internacional tão robusto. Dessa forma, as redirecionadoras seriam importantes para tornar acessíveis uma série de bens de consumo que o brasileiro não pode ou não deseja, por algum motivo, comprar em território nacional.

Ainda listando benefícios, o especialista ressalta que o consumidor pode avaliar o quão disposto está para pagar um produto específico, gerando economia no bolso. Pensando no dólar, por exemplo, é possível estudar as variações da moeda e fazer a compra no momento em que ela estiver mais favorável. Drummond reforça que ao comprar produtos dolarizados no Brasil, não é possível ter esse controle. “Qualquer tipo de facilitador para o comércio internacional é sempre bem-vindo”, aponta.

O vice-presidente da empresa norte-americana de inteligência logística Sinerlog, Igor Pipolo, destaca que o mercado está aquecido e pode ser interessante, principalmente, na compra de bens de consumo que não estão disponíveis no Brasil. É o caso de eletrônicos recém-lançados ou cosméticos e remédios específicos.

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Como exemplo, ele cita o personal shopper, “comprador pessoal” em português. “Pensando que o cliente esteja em busca de uma roupa de grife específica, um cinto da marca Gucci, por exemplo. Nesse caso, não existe um marketplace em que a compra possa ser feita. O personal shopper vai até a loja, escolhe o produto, realiza a encomenda, embala e envia para o Brasil”.

Nesse caso, as taxas pagas para a importação do produto e intermédio do profissional valeriam a pena, por ser algo de desejo do consumidor que não pode ser encontrado em seu país de origem.

Cuidados são necessários e consumidor deve saber como se resguardar

O especialista e professor de direito do consumidor Marco Antônio Araújo pontua que uma intermediadora está sujeita ao Código de Defesa do Consumidor e das leis brasileiras, mesmo que seu endereço esteja localizado no exterior. “Se a empresa atua no Brasil de alguma forma, basta ter um site ativo e que faz encomendas para o Brasil: já estamos falando de um fornecedor aos olhos da lei”.

Fique de olho, então, nas empresas que afirmam não se responsabilizar pelas encomendas. Caso o produto seja recebido com qualquer tipo de avaria, quem comprou deverá ser resguardado e pode recorrer à lei. Drummond reforça que, nesses momentos, vale analisar o contrato fechado com a empresa. É justamente nesse momento que o consumidor pode se resguardar das melhores formas possíveis a fim de minimizar os riscos em fazer a compra no exterior.

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O valor está barato demais? Desconfie

Segundo o professor Marco Antônio, o consumidor deve abrir o olho para propostas que pareçam boas demais para ser verdade. “No mercado de consumo não existe mágica. Não é possível um produto custar R$ 8.000 e uma empresa praticar um valor muito abaixo, seja de R$ 2.000, por exemplo”, explica. 

Quando falamos sobre mercadorias enviadas do exterior, é importante destacar que existem tributos de importação que devem ser aplicados ao produto. Empresas que garantem a isenção desses valores podem estar praticando a evasão fiscal. “Neste caso, vale destacar que o consumidor está participando da evasão, já que concordou com o descumprimento dos protocolos tributários”, conclui.

Pipolo afirma que, hoje em dia, é muito comum uma empresa afirmar que a Receita Federal não vai fazer a taxação do produto caso ele tenha valor baixo. Nem essa e nenhuma outra garantia é verdadeira, podendo se tratar, inclusive, de mecanismos para burlar a fiscalização.

Outra prática comum é declarar na Invoice (a nota fiscal nos Estados Unidos) um valor inferior ao cobrado originalmente, buscando uma redução — ou até isenção — nos impostos. Mais uma vez, trata-se de um mecanismo ilegítimo, de acordo com o especialista.

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De acordo com a Receita Federal é cobrada uma alíquota de 60% no valor das importações. Além disso, é possível que sejam acrescentados outros impostos, como:

  • Imposto Sobre Circulação de Mercadorias;
  • Prestação de Serviços (ICMS);
  • Custos do despacho alfandegário.

Na visão de Pipolo, torna-se ainda mais importante pensar duas vezes ao comprar produtos que existem no Brasil e estão acessíveis para o consumidor com condições atrativas de parcelamento ou garantias específicas, por exemplo, algo que não pode ser feito nos Estados Unidos. Em conversa com o iDinheiro, o especialista fez uma conta rápida para exemplificar que o “barato”, na verdade, pode sair bem caro.

Um iPhone 11, vendido atualmente por uma média de US$ 600 dólares nos Estados Unidos, chegaria ao Brasil em um valor que ultrapassa os R$ 5.000, aproximadamente R$ 1.000 mais caro do que a média nacional. Justamente por causa da cobrança de impostos, frete e o valor que a redirecionadora cobra em cima da compra.

Em outros casos, pode ser vantajoso. Remédios com valor de até US$ 10.000 não têm a incidência de imposto, tornando-se um atrativo de importação.

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Decidiu comprar em uma redirecionadora de encomendas? Siga alguns passos de segurança

Ainda de acordo com o sócio-fundador da Drummond, existem inúmeros prestadores do serviço. Inclusive, atuando de forma segmentada no mercado de eletrônicos, medicamentos e produtos de beleza, por exemplo. “O contrato que você vai entrar é o que vai reger aquela situação. Quanto mais a empresa for estruturada, maior será a segurança no processo”, afirma.

O vice-presidente da Sinerlog concorda e reforça as inúmeras possibilidades de comprar ótimos produtos por meio de uma redirecionadora, desde que o consumidor siga cuidados necessários e avalie as verdadeiras vantagens, optando por empresas que ofereçam transparência suficiente para garantir uma compra dentro das legislações.

Os especialistas ouvidos pelo iDinheiro apontaram algumas práticas que podem ser seguidas para minimizar os riscos:

  • Exija sempre a nota fiscal, caso contrário, existem indícios de crime tributário. Se um fornecedor vender produtos mais baratos com a justificativa de que virão sem a nota, desconfie da procedência;
  • Faça pesquisas a respeito da reputação da empresa. Hoje em dia, com a internet, é muito simples encontrar relatos de outros consumidores;
  • Caso existam reclamações, veja se foram solucionadas. Qualquer negócio está vulnerável a erros, o preocupante é a falta de suporte e “sumiço”;
  • Peça ao fornecedor por formas de rastrear o produto, entendendo exatamente o seu caminho e recebendo uma previsão de entrega;
  • Cuidado com empresas que prometem uma entrega extremamente rápida. Existe todo um processo de embalo, envio e trâmite na Receita Federal, além de contextos alheios ao redirecionador, que vão levar um tempo considerável.

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